Toda a dor carrega um dom.
- Karina Copetti
- há 10 minutos
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“Eu precisei ser forte e dar conta para sobreviver.”
Essa frase apareceu em sessão esses dias e ela carrega algo que muitas pessoas que chegam até mim reconhecem no próprio corpo. Existe uma dignidade profunda em ter dado conta quando não havia outra opção. O sistema nervoso não está interessado em nos fazer felizes, ele está interessado em nos manter vivos. E, dentro das condições que existiam, ele encontrou caminhos para isso.
Sempre que alguém senta na minha frente para uma sessão, eu enxergo a dor, sim, mas ao mesmo tempo eu enxergo a potência e a capacidade. Porque, para estar sentada ali comigo, essa mulher precisou, acima de tudo, sobreviver. E ela conseguiu.
“Dar conta” não é um erro, é uma estratégia. É uma forma de organizar a experiência quando não há segurança suficiente para sentir. Porque sentir, de verdade, exige um corpo que não esteja em estado de urgência constante. Exige tempo, espaço e, principalmente, algum grau de segurança interna. Quando isso não está disponível, o corpo prioriza outra coisa: seguir funcionando. Então, de certa forma, parar para sentir poderia colocar a vida em risco, e a inteligência do sistema nervoso escolhe “dar conta” e seguir sobrevivendo. Fazendo os movimentos necessários para que, em algum momento, seja possível parar, descansar e, aí sim, sentir.
Essa maneira do sistema nervoso funcionar foi aprendida e pode aparecer em muitas situações da nossa vida. Muitas vezes, começou lá na infância, no que chamamos de trauma de desenvolvimento. Muitas pessoas crescem assim: aprendem a aguentar, a se adaptar, a continuar. Aprendem a ser a criança que apazigua, a que consola, a que precisa parar de reconhecer seus próprios limites para se manter em vínculo com seus cuidadores.
E isso constrói algo muito real: uma resiliência do sistema nervoso. Não é pouca coisa. É importante poder reconhecer que houve uma inteligência ali, que houve força, que houve vida se sustentando como foi possível. Já que uma criança não sobrevive sozinha, ela vai aprender e fazer o que for necessário para manter esse vínculo.
Então existe um ponto de virada sutil. Aquilo que foi essencial para sobreviver em determinado momento pode começar a se tornar limitado em outro. Porque dar conta não é o mesmo que sentir. E, com o tempo, essa diferença começa a aparecer — às vezes como um vazio, às vezes como uma sensação de estar sempre funcionando, mas pouco conectada com a própria experiência e com os prazeres da vida. Então a gente busca terapia e começa um delicado trabalho de arqueologia sobre nossas dores e nossos padrões. A gente entende muita coisa e, por mais contraditório que pareça, é comum que o corpo comece a “voltar” para certos padrões: sensações conhecidas, estados internos repetidos, reações que parecem automáticas.
Isso não significa que a pessoa não evoluiu. Significa que existem experiências que ainda não puderam ser vividas com segurança suficiente para serem integradas. O corpo não desiste disso, ele busca completar o que ficou interrompido até que isso realmente aconteça. Porque, para o corpo, não basta entender — é preciso experienciar. Experienciar segurança. Experienciar descanso. Conseguir desligar o estado de alerta, sentir que determinada experiência passou e, assim, atualizar o sistema nervoso no presente.
E aqui entra algo importante: esse processo não acontece de uma vez só. O sistema nervoso trabalha em pequenas doses. Ele se aproxima, se afasta, testa, recua, tenta de novo. Existe um ritmo próprio, que muitas vezes é mais lento do que a mente gostaria, mas que é o ritmo possível para que haja, de fato, transformação sem sobrecarga.
Na Experiência Somática, a proposta não é forçar o contato com a dor, mas ampliar, gradualmente, a capacidade de estar com o que surge. Sentir sem se perder. Permanecer no corpo sem entrar em colapso. Acessar conteúdos difíceis sem ser engolida por eles. Isso não é sobre intensidade, é sobre capacidade.
Porque toda dor carrega algo junto. Carrega um dom. Às vezes, uma força que não pôde ser reconhecida. Às vezes, limites que não puderam ser colocados. Às vezes, partes de si que precisaram se esconder para garantir a sobrevivência. E que agora, em outro contexto, podem começar a aparecer — não para reviver tudo, mas para integrar. Sem pressa. Sem forçar. Sem precisar acessar tudo de uma vez.
O que buscamos é construir, no corpo, referências de segurança suficientes para que o sentir se torne possível. O corpo não precisa de mais exigência. Ele precisa de condições diferentes. E isso, aos poucos, pode ser aprendido. Porque, dessa vez, não é mais sobre sobreviver — é sobre poder, enfim, sentir que tu estás aqui.
