Entregar-se
- Karina Copetti

- há 3 dias
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Mas antes, um poema.
Pegando no sono penso em coisas esquisitas, em como as pessoas penduram suas roupas nos varais. Uma obra de arte viva a serviço do tempo. Uma sensibilidade interna, única, que só faz sentido para quem as pendurou. Tem um quê de poético no fato daqueles tecidos encobrirem o corpo, os cheiros, as memórias. As roupas de estimação. O que estava sentindo quando pendurou a sua obra. Quando foi a última vez que usou, quem tocou ou quem as tirou. Pendurar no varal é entregar a vida ao tempo. É se perdoar pela necessidade ou vontade de às vezes deixá-las lá, passar a noite. Umedecer. Absorver o mistério e o silêncio do que se resolve enquanto dormimos. É estar na rua admirando a chuva e de repente, meu deus, as roupas no varal. E vão secar de novo, talvez não hoje, talvez não amanhã. Vão secar. Ficarão estendidas para que seja possível ver. Ou quando ainda não sabemos onde guardá-las. Engavetar memórias com cheiro de algodão, custa. Ouvi a lembrança do som do barulho da fechadura do meu antigo guarda roupa. Era lá que escrevia do lado de dentro das portas o que precisava guardar. Agora nesse monte de prateleiras expostas, me aproprio do que dupliquei. Eu tinha umas roupas quarando no varal, é por isso que escrevo. Cortei as mangas daquela blusa - a blusa que sorria e me apertava os abraços. Raiva de temperatura apropriada para enrolar o extenso fio de pendurar. Simplesmente retiro as malas do guarda roupa. Refaço o que havia sido feito. Lentamente: retiro as malas do guardo roupa. Então voltamos à poética da toalha de mesa sendo embalada pelo vento. Perdi o sono pensando naquela mancha.
Não é preciso mais saber o que se comeria ali em cima.
Em cima da mancha.
O assobio no canto da boca é misterioso como o varal que seca na sombra.
Isso basta.
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À noite, os pensamentos começam a girar. A mesma pergunta volta por ângulos diferentes. O corpo cansado, a cabeça acordada. Uma tentativa incessante de organizar, prever, entender. Nesse monte de porquês não procuramos exatamente uma verdade, uma resposta suprema, procuramos controle, pois temos medo. Porque algo lá dentro ainda não se sente a salvo.
O trauma é justamente algo que saiu do nosso controle - foi rápido demais, intenso demais, inesperado demais - e nos deixou desorientada. Então pensar - e ruminar - vira vigília. O cansaço que vem disso não é falha, jamais, é sinal de que algo segue sendo vivido como ameaça e precisamos estar atentas e alertas, para que nada de ruim volte a acontecer ou que ao menos, não nos pegue de surpresa.
Então dormir é “um lugar” de perder o controle.
Não podemos escolher nossos sonhos, por mais que possamos intenciona-los, e ficamos com uma pergunta sem resposta, pois não estamos lá, em testemunho consciente, para saber exatamente aonde aquele sono nos levará. Assim o perdemos. O corpo resiste. Não conseguimos fechar os olhos e se entregar.
Perdemos o sono e caímos em devaneios de pensamentos que têm como objetivo encontrar algum controle, alguma métrica, alguma lógica. A curiosidade compulsiva como sinal de estado de alerta constante, e a mente, confusa, tentando usar controle como forma de regulação. O significado distorcido de que se eu sei - se eu controlo - estou segura. Ou as incessantes perguntas como uma forma de esquiva do sentir. Ficar esperando a resposta perfeita para “descansar”.
A mente não é capaz de descansar o corpo.
O contrário, sim.
A Experiência Somática é uma prática orientada à sensação. O corpo vai me sinalizar antes do pensamento. O critério não é a clareza, é o assentamento. Para sermos capazes de formar novos significados, incorporados e verdadeiros, temos que nos sentir seguras - temos que sentir a roupa seca tocando a nossa pele. O corpo é o critério.
Eu não preciso ter feito uma faculdade de meteorologia para saber que, ao sol, as roupas vão secar. Eu posso sentir o calor na pele, o vento que bate suave, me orientar pela luz a e saber mais ou menos que horas são, se devo recolher as roupas ou não. O corpo percebe antes do entendimento a sensação. Ele reconhece se colocamos uma roupa ainda úmida ou morna e isso muda nossa sensação, se sentimos conforto ou desconforto, se estamos seguras ou não. Sensação não precisa de explicação. Isso basta.
O que precisamos é de ar, tempo de secagem no varal, e não de infinitas explicações. Estar em segurança é sustentar as roupas estendidas, o tempo do corpo, o tempo do próprio tempo. Para conseguir fechar os olhos à noite, se entregando ao mistério, não precisamos da narrativa, precisamos da sensação. E aqui, tolerância ao mistério é marcador de estados de segurança.

tem mais fotos da minha coletânea de varais no meu Instagram

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