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Trauma e limites: Por que teu corpo evita dizer “não” (mesmo quando tu quer)

  • Foto do escritor: Karina Copetti
    Karina Copetti
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Quando falamos em trauma, muitas vezes a primeira associação é com a história em si, com que aconteceu - com a experiência que o trauma rompeu ou interrompe. Mas, na prática clínica, existe algo que procuramos tocar para além disso, pois o trauma não rompe só a experiência, ele rompe nossos limites. Principalmente quando falamos em traumas relacionais e de desenvolvimento, aquilo que se quebra não é apenas um evento isolado, mas a capacidade de perceber, sustentar e confiar nos próprios limites. São situações que aconteceram dentro de relações íntimas, onde havia confiança, vínculo, entrega. Relações em que, de alguma forma, quem deveria respeitar teus limites não respeitou. Então o corpo, diante disso, precisou encontrar uma forma de continuar existindo ali.


Nosso sistema nervoso não tem como prioridade a verdade, a autenticidade ou a coerência interna. Ele tem como prioridade a sobrevivência. Então, quando um limite é invadido repetidamente e, ainda assim, a relação precisa ser mantida, o corpo começa a aprender alguns caminhos.


Aprende que talvez não adianta dizer não.

Aprende que pode ser mais seguro se adaptar.

Aprende que perceber o outro é mais importante do que perceber a si mesma.

E, principalmente, aprende que dizer “não” pode colocar a própria sobrevivência em risco.


Isso não acontece de forma consciente. Isso vai sendo registrado no corpo, pouco a pouco, como uma espécie de lógica interna: “se eu me posiciono, eu perco o vínculo; se eu me adapto, eu me mantenho segura”. Quando a gente olha para isso a partir de traumas de desenvolvimento, tudo começa a fazer muito sentido. Uma criança não sobrevive sozinha, ela depende profundamente do vínculo com seus cuidadores. Então, se existe a percepção, mesmo que implícita, de que um “não” pode gerar conflito, afastamento ou ruptura desse vínculo, esse “não” deixa de ser apenas uma escolha e passa a ser uma questão de sobrevivência. Se dizer “sim” durante a infância foi o que te manteve em vínculo com esses cuidadores, e te fez sobreviver, porque teu corpo, faria diferente agora? Então, colocar limites deixa de ser algo simples para ser algo que fala sobre a nossa sobrevivência. 


Nesse contexto, não dizer “não” não é fraqueza, é adaptação. E isso muda completamente a forma como olhamos para o tema dos limites. Porque, então, não é apenas sobre aprender a colocar limites, é sobre o corpo aprender que pode ser seguro ter limites. E isso acontece na experiência, na relação. Acontece quando o corpo começa, aos poucos, a viver situações onde é possível se posicionar sem perder o vínculo, sem entrar em colapso, sem sentir que está em risco. E lembrando também que em algumas relações, ao colocarmos nossos limites, podemos sim perder o vínculo, mas diferente da infância: vamos sobreviver.


Uma vez que a gente aprende a dizer “não”, não precisamos dizer sempre. Limites, não precisam ser rígidos como uma linha fixa que precisa ser defendida o tempo todo. Limites são vivos, dinâmicos. Nem muito apertados, que quase não cedem: esses protegem mas também restringem, endurecem, afastam. Nem muito abertos, onde tudo passa: esses acabam nos afastando de nós mesmas e nos adaptando para além do que seria saudável.

Então que possamos dançar com limites que se ajustam, nos mantém vivas, em vínculos seguros, protegidas, mas interagindo. Que, dependendo da situação, da relação e do momento, podem apertar ou abrir um pouco. Limites que não são estáticos, mas que respondem à nossa vida.


Talvez limites saudáveis tenham menos a ver com rigidez e mais a ver com percepção. Perceber a si mesma, perceber o outro e, ainda assim, conseguir se manter em relação sem se abandonar. E isso não é algo que a gente acerta sempre. Às vezes vamos apertar demais, às vezes vamos ceder demais. Às vezes vamos ultrapassar o limite do outro ou permitir que ultrapassem o nosso. E é justamente nesse movimento que o aprendizado acontece. Na possibilidade de ir tentando, ajustando, percebendo. Na possibilidade de estar em relação sem precisar se abandonar para permanecer.


Limites também se constroem no erro. No ajuste. No tempo. Na relação.

Na verdade, estar em relação é uma dança de limites.


Talvez uma das formas mais honestas de começar a construir limites não seja dizendo “não” de imediato. Seja percebendo. Percebendo quando algo, dentro de ti, já é um não, mesmo que ele ainda não tenha virado palavra. Muitas vezes, o limite aparece primeiro no corpo. Um aperto. Uma contração. Uma inquietação. Um cansaço que surge sem explicação. Uma vontade de sair daquela situação. E, aos poucos, experimentar respeitar esses pequenos sinais internos. Nem sempre vai ser claro e obviamente, nem sempre vai ser confortável. A gente insiste na ideia de que impor e sustentar limites é algo confortável, mas na verdade não é. O conforto vem depois, às vezes ainda emaranhado de culpa e outros sentimentos paradoxais, mas na hora, não é muito confortável. 


Por isso, quando alguém tem dificuldade de dizer não, isso não fala sobre um defeito de personalidade. Não fala sobre ser “boa demais” ou sobre não saber se impor. Fala sobre um sistema nervoso que aprendeu, em algum momento da vida, que ter limites não era seguro.

Colocar e sustentar limites está intimamente ligado a nossa a experiência de viver limites: como algo que protege e não como algo que ameaça.


Porque, no fundo, construir limites não é sobre afastar o outro.

É sobre, finalmente, poder se incluir.



 
 
 

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