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Perfeccionismo como ferramenta de proteção

Foto do escritor: Karina Copetti
Karina Copetti
há 9 horas
3 min de leitura

O perfeccionismo costuma ser visto como uma qualidade. A pessoa responsável, cuidadosa, disciplinada, que se esforça, entrega tudo bem feito e dificilmente deixa alguma coisa pela metade. Por fora, parece competência. E muitas vezes é mesmo isso. Mas e quando fazer tudo bem deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade? Quando errar parece perigoso, quando decepcionar alguém parece insuportável, quando descansar vem acompanhado de culpa, quando existe uma sensação constante de que ainda não está bom o suficiente.


Nesses casos, o perfeccionismo costuma estar ligado a uma estratégia de proteção construída ao longo da vida.


O que o sistema nervoso tem a ver com isso

O sistema nervoso está o tempo todo avaliando o ambiente em busca de segurança ou ameaça. Ele aprende, a partir das experiências vividas, o que precisa ser feito para manter uma sensação de pertencimento, previsibilidade e segurança. Para algumas pessoas, aprender a fazer tudo certo foi uma forma de evitar conflitos, críticas, rejeição ou imprevisibilidade. Ser impecável podia significar estar mais segura. Ser muito competente podia significar não precisar depender de ninguém. Antecipar problemas podia significar evitar consequências.


Com o tempo, essa forma de funcionar se torna tão automática que deixa de parecer uma estratégia e passa a parecer simplesmente "quem eu sou". É por isso que nem sempre adianta dizer para uma pessoa perfeccionista "relaxa", "não precisa ser tão exigente" ou "ninguém espera tanto de ti". Porque não estamos falando apenas de uma ideia na cabeça. Existe um corpo que aprendeu a associar controle, desempenho e antecipação à segurança.


Quando fazer bem feito vira uma obrigação interna

O perfeccionismo aparece de muitas formas: na necessidade de revisar tudo várias vezes, na dificuldade de começar algo por medo de não fazer bem, na sensação de que descansar precisa ser merecido, na dificuldade de receber críticas, na necessidade de antecipar todas as possibilidades, na sensação de que sempre existe alguma coisa que poderia ter sido melhor.


E existe uma diferença importante entre excelência e perfeccionismo. Buscar fazer algo bem feito pode ser prazeroso. No perfeccionismo, existe uma tensão por trás da busca pela excelência, não é apenas "eu quero fazer bem", é "eu preciso fazer bem", porque existe algo em jogo: a aprovação, o pertencimento, a imagem que os outros têm de mim, a sensação de competência, ou, em um nível ainda mais profundo, a sensação de segurança.


Por isso, olhar para o perfeccionismo apenas como excesso de cobrança pode ser insuficiente. Antes de tentar eliminar esse comportamento, é importante compreender qual função ele está cumprindo.


O corpo pode aprender que nunca é suficiente

Uma pessoa pode passar anos sendo reconhecida justamente pelas características que também a mantêm em estado de tensão. Ela é a forte, a responsável, a que resolve, a que aguenta, a que faz tudo direito. E recebe reconhecimento por isso. O problema é que o corpo pode continuar funcionando como se precisasse provar, o tempo inteiro, que merece estar segura.


É aí que o trabalho somático abre outra possibilidade. Não se trata de convencer a pessoa racionalmente de que ela não precisa ser perfeita, e sim de criar condições para que o organismo experimente, pouco a pouco, que é possível errar sem perder segurança, colocar limites sem perder pertencimento, descansar sem precisar merecer e não ter todas as respostas sem entrar em colapso.


A transformação não acontece apenas quando entendemos de onde veio o perfeccionismo. Ela acontece quando o corpo começa a viver experiências diferentes, quando existe espaço para fazer menos, para não saber, para receber ajuda, para frustrar alguém, para experimentar algo sem garantir o resultado, para perceber que estar segura não depende de fazer tudo perfeitamente.


Porque, muitas vezes, por trás da necessidade de fazer tudo certo, existe uma parte do corpo que aprendeu muito cedo que precisava estar sempre preparada. E essa parte não precisa ser combatida. Precisa ser compreendida.



 
 
 

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