Neutro
- Karina Copetti

- há 3 dias
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As formigas.
Mais uma vez elas chegam na bancada e comem as minhas bananas. Arrancam pequeninos pedaços de casca e vão subindo pela parede, fazem uma volta enorme para chegar ao formigueiro que está logo ao lado da porta, mas elas não vão em linha reta, eu até imagino o motivo, mas não importa, é delas / e no fim das contas nada vai em linha reta. Sentada no chão, me deixei tomar pelo tempo da natureza, lento, tortuoso. Por dentro da terra, de superfície quase inerte, há uma construção cheia de sabedoria, de lógica e de mistério. A inteligência da natureza é cientificamente misteriosa - eu choro quando escrevo isso - um aparente controverso então perfeito alinhamento.
Há dias que planejo um texto por aqui, ao que indicam os números o ano gregoriano começou e eu queria escrever sobre a avassaladora pressão de novas métricas e listas que somos capitalistamente empurradas a fazer a cada ano. As formigas me impedem. Seus pedaços de casca de banana, a meus olhos tão pequenos e para elas tão gigantes. Essas tais listas, que nas entrelinhas contêm outras imensas listas de comparações: o meu, o do outro, o do mundo, o de todo mundo, menos o meu. Dentre os meus ritos de passagem de uma volta ao sol que se completa e se renova está reler meu caderno de escritas. Gosto de me ver um tempo depois, já em outro lugar da espiral dos processos. Então eis que lá estava escrito ao lado de um desenho: o neutro é suficiente.
Eu testemunho muitas dores e muitas alegrias nos meus atendimentos, mas raramente tocamos o Neutro. Um estado, assim como a superfície da terra, aparentemente inerte, onde há muito acontecendo. Invisivelmente, coisas em pleno acontecimento. Na maior parte dessas listas de iniciação de novo calendário está o bom versus o ruim, que alegrias quero sentir, que dores quero curar, que hábitos quero começar, que vícios quero largar. Que ótimo, tudo é válido. Eu apenas deixo aqui o ~incômodo~ convite para o neutro. Atenção:
O neutro é diferente de não sentir nada. Não é uma dessensibilização do seu corpo, nem uma dissociação do mundo. Tem coisas que não têm neutro: política, racismo, preconceito. Não tem neutro. O convite é sobre a neutralidade perante as performances de ação e, mais que isso, emoção. Assim como na física existe o próton, o elétron e o nêutron. O próton com sua carga positiva, o elétron com sua carga negativa, e o nêutron silencioso. Sem carga aparente. O que parece não fazer nada. É ele quem sustenta o núcleo. Sem o nêutron, o átomo não se mantém inteiro. No corpo, no sistema nervoso, o neutro cumpre uma função parecida. Ele não é euforia nem dor, não é avanço nem retração. Não é a lista do que falta, nem o alívio do que foi conquistado. É um estado discreto, muitas vezes pouco valorizado, onde o organismo pode se reorganizar, processar o vivido, encontrar chão. Talvez o neutro não esteja aqui para nos levar a lugar nenhum. Talvez ele seja o lugar. Como a aparente superfície inerte da terra, como as formigas sem linha reta, como o tempo da natureza que não responde a métricas. O neutro não performa, não impressiona, não se explica. O neutro sustenta.
Que neste início de ciclo, entre tantas listas e intenções, a gente possa também repousar no que não pede mudança. Dar espaço ao que é suficiente.
Ao neutro.


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