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// Começar pelos pés

  • Foto do escritor: Karina Copetti
    Karina Copetti
  • 1 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Começar pelos pés. Materializar para tirar o peso do invisível.


Aqueles grãos de areia outra vez no rastro do meu faro. No breu da noite o canto da mulher fazia mar escorrer dos olhos. O que deixei escapar foi a Fé. “O fogo, o pão”. Para abrir novos olhos tem-se primeiro que se perceber cega. Sempre foi assim, uma busca de visão / então onda que quebra com ruído de autocompaixão. A diferença agora: são os olhos nos pés.


Amanheceu e me perdi. A estrada acabou na frente de uma casa de rosas. A Senhora na janela explicou que o que eu procurava não era ali, contou a disputa pela herança e que nesse tempo a mata tomou de volta o que era seu, fechou tudo. Arrisquei e perguntei se mesmo perdida eu poderia ficar. O que tu quer fazer lá sozinha? Falar com Deus. Ela riu, me levou muito a sério. Me explicou os sinais, as árvores que iriam me orientar e a quebrada do rio. Coloquei a mochila nas costas e na saída me fez uma última pergunta. Tu não tem medo? De bicho não, só de gente.


(imagino como deve ser viver homem, viver tendo medo de bicho, a onça mata pra comer, e não deve ser bom ser carne de caça, mas prefiro ser carne de onça a ser carne de homem)


Ainda em transe com o canto do rio senti o peso do(s) luto(s) no peito. Plurais, individuais. Só me vi ali, sentada no mundo, porque fui avisada pelo rastro do avião no céu. Eu tentaria então o peso da pedra. O que parecia pequena, era na verdade só uma pontinha. O que está visível é sempre uma ponta. Enorme e sincronamente em formato de órgão do coração nomeei intuição, depois de muito olhar vi que tinha um rosto, de uma velha, reafirmei: Intuição. Gravei nos braços aquele peso soprando a pedra bem de leve para não tirar nada a frente do seu tempo. A justa medida para sustentar o peso. Eis que estar cega então é uma benção. Faz-se olhos de humildade perante os rios que escorrem.


Processos. Nem tudo que escrevo e penso é comprovado por meios científicos. Me acontece que se perco a invenção perco justamente o que é brutalmente real. Se a vida é coisa que a gente inventa pra viver, deixe-me lembrar a mim mesma de inventar quantos olhos precisar.



 
 
 

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