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A biologia do afeto

Foto do escritor: Karina Copetti
Karina Copetti
há 12 horas
5 min de leitura

O corpo depois da tempestade: como o nosso sistema nervoso volta a respirar


Sempre que eu trago o cenário político para as nossas conversas e reflexões, faço isso por um motivo biológico muito simples: não existe saúde mental individual descolada da saúde coletiva.


A base fundamental de qualquer processo terapêutico, e da nossa existência como humanos saudáveis, é a segurança e o amparo. É impossível falarmos de bem-estar, de "cura" ou de regulação emocional quando o ambiente lá fora nos ameaça o tempo todo. É por isso que eu falo sobre autoritarismo, sobre preconceitos e sobre dinâmicas de poder. Porque o que acontece na estrutura da sociedade não fica apenas nas notícias - bate direto no nosso sistema nervoso. A política molda o nível de perigo ou de segurança em que os nossos corpos habitam.


E é por estarmos habitando um cenário de tanta tensão nos últimos meses (e anos) que estamos exaustas. O nosso corpo tem toda a razão de estar assim. Acompanhar o cenário do Brasil e do mundo não nos deixou apenas com raiva, medo ou perplexidade. Nos deixou fisicamente drenadas. Somado ao fato de que quando acompanhamos ameaças e traumas coletivos "lá fora", isso vai colar com nossos traumas pessoais - de relações, de violências, de negligência - aumento ainda mais a carga do nosso sistema nervoso e nossa sensação de exaustão.


A biologia da ameaça (ou o cérebro que vê cobras)

Quando o nosso corpo sente uma ameaça real, todo o sistema nervoso entra em alerta absoluto. A gente sente o perigo muito antes de ter tempo para pensar sobre ele. Foi exatamente assim que sobrevivemos como espécie nestes milhões de anos que habitamos a Terra: quando tu vês um galho torto caído no chão, o teu corpo responde de imediato, porque aquilo poderia ser uma cobra. Muito antes da tua mente analisar a situação, o coração dispara, a boca seca e uma descarga imensa de adrenalina toma conta de tudo para que tu possas reagir. O nosso sistema nervoso mamífero ainda funciona exatamente assim. A grande questão é que a "cobra", atualmente, assumiu a forma de ameaças institucionais, de discursos de ódio e do fantasma de governos operando pelo medo. Então, sim, biologicamente a gente esteve operando no nosso limite máximo de alerta.


A matemática do trauma e o congelamento

Diante do perigo prolongado, nossas respostas de sobrevivência são reflexas e instintivas. O corpo tem basicamente três saídas. As duas primeiras são a luta ou a fuga. E é importante dizer que não existe resposta superior no mundo animal; a mais elegante é simplesmente aquela que garante a tua sobrevivência e a que o teu corpo dá conta de sustentar. Não é uma escolha consciente. A gente entra em luta ou fuga quando sente que a carga da experiência ainda cabe no limite da nossa energia.


Mas e quando esse limite é ultrapassado? Se essas duas primeiras respostas não estiverem disponíveis, ou se o nosso sistema nervoso avaliar que a ameaça é grande demais para darmos conta, entra em cena a nossa terceira resposta de sobrevivência: o congelamento. Ele é disparado quando a exaustão bate. O congelamento costuma ser duramente julgado pela sociedade como desistência, preguiça, alienação ou falta de coragem. Mas não se engane: o desligamento é a resposta mais inteligente de um corpo que percebeu que não daria conta de lutar e precisa poupar energia vital. Ele se prepara para uma espécie de "morte" temporária, anestesiando a dor física e emocional. Expostos a discursos de violência e instabilidade sistêmica, a sensação de imensidão paralisa a nossa fisiologia e o cérebro, simplesmente, escolhe desligar para nos defender do colapso.


O medo do outro e a ilusão do autoritarismo

Para sairmos desse congelamento e voltarmos a respirar, precisamos entender o que nos levou até lá. O medo nunca é neutro; ele é uma ferramenta deliberada de controle político usada para manter a população fragmentada, jogando o teu corpo direto nesses lugares de defesa que citei acima.


A grande ironia é que a origem do ódio coletivo é também um medo insuportável do diferente - a pluralidade de corpos, de gêneros, de linguagem, de formas de amar. O nosso cérebro primitivo teme o desconhecido. A maturidade emocional é, justamente, aprender a lidar com esse medo sem querer eliminar o outro. Mas quem não aprendeu a lidar com a autonomia do seu sentir, com seus desejos reprimidos e com as incertezas inerentes à vida, acaba buscando segurança em discursos rasos.


Discursos autoritários oferecem respostas simples e curtas para uma realidade hipercomplexa. Oferecem um culpado. Um inimigo. Alguém para responsabilizar por aquilo que está doendo internamente. Nesse cenário, a alteridade do outro passa a ser sentida como uma ameaça à própria existência.


Uma pessoa dominada pelo medo tem quase zero espaço interno para escutar, perceber nuances ou se questionar. Quando o ódio vira ferramenta de controle, a divergência deixa de ser convivência e passa a ser tratada como algo que precisa ser eliminado.


A nossa saída: O Parassimpático Ventral e as Pequenas Doses

A opressão deseja ilhas de solidão. Ela precisa de corpos paralisados no congelamento, obedientes, assustados e desconectados uns dos outros, porque um corpo isolado é um corpo vulnerável.


E é aqui que eu abro uma janelinha para a estrela da nossa recuperação somática: o nosso parassimpático ventral.


Em situações de extremo perigo, o sistema nervoso desliga o nosso setor de vínculos (afinal, não dá para se defender da cobra e querer fazer amizade com ela ao mesmo tempo). Mas, agora que a poeira das urgências vai baixando, é justamente a neurobiologia do parassimpático ventral, o nosso sistema de conexão social, que nos permite ancorar no tempo presente para que a gente consiga voltar a viver, e não apenas sobreviver.


Como é que a gente liga essa via de novo? Cantando junto. Buscando abraço. Pedindo colo. Cuidando de alguém. Brincando, pulando, rindo daquele meme idiota que você compartilha no grupo de amigos. Trocando calor. A revolução que precisamos hoje para manter a nossa saúde mental intacta é, também, uma revolução de afeto e aconchego. A gente precisa de gente perto para o corpo conseguir metabolizar tudo o que aconteceu/acontece no mundo.


E lembre-se de uma regra de ouro do nosso sistema nervoso para a cura: ele adora pequenas doses. A imensidão é o que faz o corpo entrar em colapso. Se o cenário ficar grande e pesado demais, divide. Dá um tempo das redes sociais e do noticiário. Chama um amigo para tomar um café, amassa um pet, vai cozinhar algo com cheiro de memória afetiva. É urgente dividirmos a grandeza do que nos assusta em porções menores, em quantidades que o nosso corpo consiga digerir sem quebrar.


Estarmos com o corpo no mundo hoje, de peito aberto, é um pacto intransigente com a nossa própria humanidade. Diante de qualquer projeto de medo, o corpo vivo, em conexão e em coletividade, é e sempre será o nosso território mais seguro. Vamos achar brechas para amar no meio disso tudo.


É justamente por acreditar na força das nossas trocas e na segurança que construímos juntas que o trabalho de terapia faz tanto sentido para mim. Manter espaços de escuta, reflexão e cuidado é uma das formas que eu mesma encontro de manter o meu próprio parassimpático ventral ativo e o meu corpo regulado.


Que a gente siga se amparando. Em pequenas doses, mas de forma constante.


Treze abraços apertados,



 
 
 

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